3/08/2012
2/05/2012
Texto de Aquiles do MPB4 em seu blog Batéia Cultura
Coluna do Aquiles, o CD instrumental de João Parahyba:
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
A locomotiva rítmica do samba-jazz
João Parahyba é um dos maiores bateristas brasileiros. Seu DNA rítmico nasceu da forma como tocava timba. Isso quando ele integrou o Trio Mocotó, junto com Fritz Escovão e Nereu Gargalho, nos anos 1960: três sambistas que, sem perder de vista o jazz e o rock, proporcionaram novos ares ao nosso velho e bom ritmo.
Ao se desligar do trio, em 1973, João parecia ter também desencanado da música. Nada disso. Sete anos depois ele estava de volta. Suas baquetas seguiam tão surpreendentes como antes. Sua veia de misturador de gêneros fervia mais do que sempre: samba-rock, samba-jazz, samba, rock, jazz, tudo junto e misturado a um só tempo, o suingue de cada um desses gêneros brotando aos borbotões.
Em 2000, ao retomar o trabalho com o Trio Mocotó, Parahyba aqueceu as mãos e retomou o gosto pelas coisas das batidas diferentes, até que, anos mais tarde (2009), convidou Beto Bertrami (pianista), Rudy Arnaut (guitarrista), Giba Pinto (contrabaixista), Ubaldo Versolatto (saxofonista e clarinetista) e Janja Gomes (reprocessamento e samples) e com eles formou o João Parahyba Sexteto, que lançou o CD O samba no balanço do jazz (selo Sesc SP).
Para tocar temas que marcaram a música brasileira instrumental dos anos 1930, como “O Trenzinho do Caipira”, de Heitor Villa-Lobos, e dos anos 1960, como “Nanã” (Moacir Santos), “Sambou, Sambou” (João Donato), “Batida Diferente” e “Estamos Aí” (Maurício Einhorn e Durval Ferreira), o sexteto de João Parahyba convidou outros grandes instrumentistas: Tiago Costa (pianista e arranjador), Clayber de Souza (gaitista), Nailor Proveta (clarinetista), Teco Cardoso (saxofonista e flautista), Marcelo Mariano (baixista) e Rodrigo Lessa (bandolinista). A esse repertório se somaram três composições do próprio João Parahyba, uma de Laércio de Freitas (cujo arranjo é do próprio Laércio), outra de Gilberto Pinto, outra de Janja Gomes, outra de Amilton Godoy (cujo arranjo é do próprio Godoy), outra de Rodrigo Lessa e Eduardo Neves e uma de Marcos Romera.
Para realçar suas interpretações, os instrumentistas se revezam em meio a saborosos improvisos jazzísticos, aprazem-se com as requintadas melodias e vez por outra se juntam para sonorizar o conceito que se traduz na tal mistura do chiclete com banana apregoada por Jackson do Pandeiro: harmonia de gêneros musicais universais e complementares (sem antagonismos e posturas xenófobas) da cintura brasileira. O resultado dessa união de genialidades é um samba elevado à máxima potência.
Em cada faixa tem-se a forte presença da bateria de João, que toca como um trem que, com suas rodas unidas a dois eixos que vão e vem, soa a batida ideal para a levada do ritmo. Os outros instrumentos viajam juntos na fantasia.
Xique-xique-tic-tic-xique-xique-tic-tic, vai o trem abrindo caminho, com João Parahyba e seu talento inconteste à frente, avivando o som musical da alegoria. O trenzinho segue delirante... O samba-jazz está com ele.
9/08/2011
“O Samba no Balanço do Jazz” por Carlos Calado
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| Art by Bijari |
É natural que as gerações mais jovens associem a imagem de João Parahyba ao lendário Trio Mocotó, cujo contagiante samba-rock foi redescoberto e festejado durante a última década. Mas quem acompanha a carreira desse eclético percussionista, compositor e arranjador paulista sabe que ele também já colocou seu talento a serviço da MPB, do jazz, da música instrumental ou até da música eletrônica.
Neste álbum, JP interpreta com personalidade a atmosfera sonora do samba-jazz – o híbrido subgênero que revigorou a música instrumental brasileira, na década de 1960. “Minha intenção foi fazer uma reverência ao começo de minha vida musical. Fui um privilegiado, porque entrei na música convivendo com Milton Banana, com o Zimbo Trio e o Tamba Trio. Eu era amigo do Luiz Eça, do Bebeto, do César Camargo Mariano e do João Donato. Fui aceito por eles como o caçula dessa seleção”, relembra.
Com a sabedoria de quem conhece a fundo a linguagem do samba-jazz, JP relê aqui alguns clássicos dessa vertente, como “Sambou, Sambou” (João Donato), “Nanã” (Moacir Santos) e “Batida Diferente/Estamos Aí” (Durval Ferreira e Maurício Einhorn). Exibe também saborosas composições próprias que remetem a esse gênero, como “Kurukere” e “Number One”, conduzindo o elegante quinteto que inclui Giba Pinto (baixo), Rudy Arnaut (guitarra), Marcos Romera (piano) e Teco Cardoso (sax barítono e flauta), além das participações de Thiago Costa (piano), Rodrigo Lessa (bandolim), Marcelo Mariano (baixo), Beto Bertrami (piano) e Ubaldo Versolato (flauta e sax barítono).
Três veteranos do gênero também participam do projeto. Mentor musical de JP, Amilton Godoy, o pianista do original Zimbo Trio, contribui com um arranjo de sua composição “Batráquio”, escrito especialmente para o quinteto do percussionista. O compositor e arranjador Laércio “Tio” de Freitas oferece a seu ex-aluno a oportunidade de lançar a inédita bossa “Búzios”. Clayber de Souza, ex-integrante dos cultuados Sambalanço Trio e Jongo Trio, mostra seu virtuosismo à gaita, no jazzístico arranjo que escreveu para o “Trenzinho do Caipira” (Villa-Lobos).
JP também introduz neste álbum seu filho Janja Gomes, autor da sensível valsa-jazz “Valseta”, cuja gravação destaca o emotivo solo de clarinete de Nailor Proveta e um inusitado sample com o argentino Julio Cortázar, declamando um de seus escritos poéticos. Uma bela surpresa que nos faz pensar: embora não seja regra, o talento artístico certamente pode ser transmitido por via genética.
Carlos Calado
Jornalista e crítico musical
9/06/2011
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